Setembro Amarelo: saúde mental infantil em foco

Setembro Amarelo também aborda a saúde mental infantil e dos adolescentes. Saiba reconhecer os sinais de sofrimento emocional, como conversar sem medo e quando procurar ajuda.
Setembro Amarelo é um período importante para ampliar as conversas sobre saúde mental e prevenção do suicídio. Embora muitas vezes o tema seja associado principalmente aos adultos, crianças e adolescentes também podem apresentar sofrimento emocional intenso e comportamentos de risco.
Nos últimos anos, os serviços de emergência pediátrica têm recebido pacientes em situações relacionadas à saúde mental, incluindo episódios de automutilação, intoxicações intencionais e tentativas de suicídio. Esse cenário reforça uma mensagem importante: a saúde mental precisa fazer parte do cuidado com a criança e o adolescente muito antes de uma situação chegar à emergência.
Crianças e adolescentes também podem estar em sofrimento?
Sim. Nem sempre uma criança ou adolescente consegue explicar o que está sentindo. Diferentemente dos adultos, o sofrimento emocional pode aparecer principalmente por meio de mudanças de comportamento.
Alguns sinais que merecem atenção:
- isolamento repentino ou afastamento de familiares e amigos;
- perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer;
- tristeza ou irritabilidade persistentes;
- alterações importantes no sono ou no apetite;
- queda inesperada no rendimento escolar;
- sentimentos de culpa, inutilidade ou desesperança;
- mudanças marcantes de comportamento;
- automutilação;
- falas relacionadas à morte, ao desaparecimento ou à falta de vontade de viver.
Um sinal isolado não significa necessariamente que exista risco de suicídio. O mais importante é observar mudanças persistentes, sua intensidade e o contexto em que aparecem.
"É apenas uma fase" nem sempre é a melhor resposta?
Durante a infância e a adolescência, mudanças de humor podem acontecer. Entretanto, quando uma mudança é intensa, persistente ou começa a interferir na rotina, nos relacionamentos, na escola ou nas atividades habituais, ela merece atenção.
Frases como:
- "Queria desaparecer."
- "Não aguento mais."
- "Seria melhor se eu não estivesse aqui."
- "Vocês ficariam melhor sem mim."
não devem ser automaticamente interpretadas como drama, manipulação ou uma tentativa de chamar atenção.
Toda fala relacionada à morte ou ao desejo de desaparecer merece ser acolhida e levada a sério.
Perguntar sobre suicídio aumenta o risco?
Uma dúvida frequente entre os pais é se conversar diretamente sobre suicídio poderia estimular esse tipo de pensamento.
Não. Perguntar de forma acolhedora e direta não coloca a ideia na cabeça da criança ou do adolescente.
Quando existe preocupação, os pais podem iniciar a conversa de maneira simples:
- "Eu percebi que você não está bem. Quero entender o que está acontecendo."
- "Você tem se sentido muito triste ou sem esperança?"
- "Em algum momento você pensou em morrer ou em se machucar?"
O mais importante é ouvir sem julgamentos, sem minimizar o sofrimento e sem transformar imediatamente a conversa em uma bronca.
Às vezes, a criança ou o adolescente não precisa, naquele primeiro momento, de uma solução. Precisa perceber que existe um adulto disposto a ouvir e ajudá-lo.
Qual é o papel do pediatra na prevenção?
Quando falamos em prevenção do suicídio na infância e na adolescência, é fundamental lembrar que o pediatra também tem um papel importante na identificação precoce do sofrimento emocional.
A consulta pediátrica não deve avaliar apenas peso, altura, alimentação, sono, vacinação e desenvolvimento físico. Observar o comportamento, o humor, os relacionamentos, o desempenho escolar e o funcionamento emocional também faz parte do cuidado integral.
Muitas vezes, a criança ou o adolescente chega ao consultório por uma queixa aparentemente física — dor de cabeça, dor abdominal, cansaço, alteração do sono ou perda de apetite — e, durante uma conversa cuidadosa, podem surgir sinais de ansiedade, depressão, bullying, dificuldades familiares, sofrimento escolar ou outras situações que estejam impactando sua saúde.
Por isso, o pediatra precisa estar atento não apenas ao que o paciente diz, mas também às mudanças de comportamento, à forma como ele se comunica e ao contexto em que está inserido.
A consulta de rotina também é uma oportunidade de prevenção?
Sim. O acompanhamento pediátrico ao longo do tempo permite que o profissional conheça a criança e perceba mudanças que poderiam passar despercebidas em uma consulta isolada.
A partir dos 12 anos, a Academia Americana de Pediatria recomenda o rastreamento do risco de suicídio como parte do cuidado preventivo. Entre 8 e 11 anos, a avaliação pode ser indicada quando houver sinais de alerta, preocupações apresentadas pela criança ou pela família ou indicação clínica.
E existe algo especialmente importante: o pediatra não precisa esperar que o adolescente diga espontaneamente que está pensando em morrer. Perguntas diretas, feitas de maneira acolhedora e apropriada para a idade, podem abrir espaço para que o adolescente fale sobre aquilo que está vivendo.
O pediatra precisa fazer tudo sozinho?
Não. Identificar um sinal de alerta não significa que o pediatra precise conduzir sozinho todo o tratamento. Seu papel é fundamental para:
- reconhecer mudanças emocionais e comportamentais;
- identificar fatores de risco e fatores de proteção;
- conversar com a criança ou adolescente de maneira segura e acolhedora;
- avaliar a necessidade de uma investigação mais aprofundada;
- identificar situações que exigem atendimento imediato;
- orientar a família;
- encaminhar para psicólogo, psiquiatra da infância e adolescência ou outros profissionais quando necessário;
- acompanhar a evolução do paciente em conjunto com a equipe de saúde mental.
Cuidar da saúde mental é um trabalho conjunto. Pediatra, família, escola e profissionais de saúde mental podem ter papéis complementares na proteção da criança e do adolescente.
Quando procurar atendimento de emergência?
Algumas situações exigem avaliação imediata. Procure um serviço de emergência se houver: tentativa de suicídio recente, intoxicação intencional, automutilação com risco importante, pensamento suicida atual, presença de um plano ou uma situação em que os responsáveis não consigam garantir a segurança da criança ou do adolescente.
Nessas situações, a criança ou o adolescente não deve permanecer sozinho. Também é importante reduzir o acesso a medicamentos, armas e outros meios potencialmente perigosos quando houver risco de autoagressão.
No Brasil, o CVV — Centro de Valorização da Vida — atende pelo telefone 188, de forma gratuita, 24 horas por dia, oferecendo apoio emocional. Também é possível conversar pelo chat em cvv.org.br.
Como o app Mini Löwe pode ajudar no acompanhamento?
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Conclusão
Saúde mental também é saúde. Saúde mental também faz parte da pediatria. Observar, acolher, conversar sem julgamentos e buscar ajuda precocemente pode mudar a história de uma criança ou de um adolescente. Se você percebeu mudanças persistentes no comportamento do seu filho, converse com o pediatra — e, em situações de risco, procure atendimento imediato.
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